Por que o mesmo modelo faz coisas diferentes em cada aplicativo
Uma LLM (sigla em inglês para grande modelo de linguagem: o programa treinado para escrever texto) só gera texto. Tudo o que você vê uma IA fazer, como pesquisar na web, salvar um arquivo ou acender uma luz, vem do sistema que existe em volta dela. Esse sistema se chama harness, palavra inglesa para arreio: a peça que liga o cavalo à carroça.
Pense num redator terceirizado que só recebe e devolve texto por e-mail: escreve muito bem, mas não entra no seu sistema, não salva nada no seu computador e não aperta botão nenhum na empresa.
Escreva um e-mail de cobrança educado para o Marcos.
Olá, Marcos. Passando para lembrar do pagamento em aberto…
Então por que o Claude no navegador consegue pesquisar na web?
Quem liga para a central de atendimento fala com a atendente, mas por trás dela há o roteiro, o sistema de cadastro e a lista do que ela pode resolver. O aplicativo parece uma conversa direta com a IA. Por baixo, existe um sistema pronto que liga o app ao modelo (no exemplo, o Opus, um dos modelos da Claude). É o harness: ele define o que o modelo pode fazer, o que não pode e quais ferramentas ele pode acionar.
Do seu lado, parece que você fala direto com a IA. Só existe a caixa de texto e o nome do modelo.
É o caminho de um pedido de compra numa empresa: quem precisa escreve o pedido, o setor de compras confere se aquilo está liberado, e é ele quem compra. Siga o pedido “quem é o presidente atual da Argentina?” do seu teclado até a resposta. Repare em quem escreve texto e em quem executa.
Dica: as setas ← → do teclado também avançam os passos.
Um estagiário com acesso ao sistema de pedidos emite o pedido; sem o acesso, ele só consegue dizer que não consegue. A pessoa é a mesma. Ligue e desligue as ferramentas do harness e faça o mesmo pedido de novo. O modelo é sempre o mesmo. Duas ferramentas pedem tradução: o terminal é a janela onde se digitam comandos para o computador, e “rodar os testes” é pedir a ele a conferência automática que diz se um programa ainda funciona.
Modelo: Opus, o mesmo em qualquer configuração.
Com a ferramenta Executar código, “Calcular a média” conta em todas as linhas; sem ela, a IA lê um pedaço e escreve um número no mesmo tom. Pergunte: ela calculou ou leu?
Numa turma, um chat devolveu as médias de uma planilha de avaliações e, perguntado, admitiu ter lido só as primeiras linhas.
O modelo não mudou. Mudou a lista de ferramentas do harness.
Quando a resposta sai errada, o reflexo é reescrever o pedido. Antes, veja em qual camada está o problema: pedido reescrito não liga ferramenta desligada nem devolve acesso que falta, e ferramenta nova não conserta pedido vago. Escolha a camada de cada caso.
A IA responde que não consegue abrir a pasta compartilhada da equipe.
O resumo veio no tom de relatório, com três páginas, e você queria um parágrafo para o diretor.
Você pediu que a IA conferisse o próprio trabalho, e ela aprovou um texto com erro.
Do lado do pedido, a página Prompt tem três casos em que o problema não é o pedido.
É a mesma pessoa trocando de crachá: com o da recepção, atende visitante; com o do almoxarifado, mexe no estoque. O Claude Code também é um harness em volta de um modelo da Claude. O que muda é o que o harness oferece: ele foi feito para trabalhar dentro de um projeto no seu computador.
O modelo não aprendeu nada novo. O harness ganhou ferramentas.
Só isso. Ela escreve, inclusive o pedido para usar uma ferramenta. Quem executa é outro programa.
Instruções do sistema, lista de ferramentas e a ponte entre o app e o modelo. É ele que decide o que o modelo pode e não pode fazer.
Quem controla o harness adiciona ferramentas sem trocar de modelo.
Simplificação didática. Cada aplicativo monta o seu harness de um jeito, e os nomes das ferramentas nos exemplos são ilustrativos. Os números do pedido “Calcular a média” são inventados para o exemplo.