Quatro peças: o modelo, a instrução, a memória e as ferramentas
Por fora, um agente (a IA que, além de responder, usa outros sistemas para fazer o trabalho) parece uma coisa só. Por dentro são quatro peças, e todo agente que falha falha em uma delas. Saber qual é a peça transforma tentativa e erro em conserto: você lê o sintoma e mexe no lugar certo.
Pense no agente como alguém que você contratou. Ele traz a cabeça; o resto você entrega: o manual do primeiro dia, um caderno para anotar e o acesso aos sistemas. Clique em cada peça e veja o que acontece quando ela falta.
É o raciocínio do eletricista do prédio: com a luz piscando, ele abre o quadro certo antes de trocar a fiação inteira. Seis queixas de quem usa um agente no dia a dia. Para cada uma, aponte a peça que você abriria primeiro.
Pense no atendente do balcão de pedidos: antes de responder, ele olha a ficha do cliente, confere o procedimento na parede e, se precisa, liga para o estoque. Uma mensagem chega: “qual o orçamento do cliente Souza?”. Siga as seis coisas que acontecem por dentro, e repare em qual peça acende a cada passo. O laço completo (o agente pensando, agindo e conferindo várias vezes seguidas) está em Agente.
É o formulário padrão do setor de compras: os campos fixos já vêm impressos, e a cada pedido só se preenche o que muda. A instrução (o system prompt) é lida antes de qualquer mensagem e pesa mais do que tudo. O que não muda a cada uso vai aqui; o que muda vai na mensagem. Quando ela passa de cinco ou seis linhas, organize em seis partes. Escolha um exemplo ou escreva o seu.
Quando o agente mora dentro de uma automação (uma sequência de passos que roda sozinha), ele vira o passo de IA: a etapa do fluxo em que a IA escreve. Os passos anteriores do fluxo já trouxeram coisas: o nome do cliente, o plano, a data. O passo de IA não vê nada disso por conta própria: vê só o que você pôs na instrução ou na mensagem dele. O dado precisa ser levado para dentro do texto e, pela regra das gavetas, o que muda a cada cliente vai na mensagem.
Ninguém escreve o manual inteiro antes de ver o funcionário trabalhar. Teste com a instrução vazia, veja o que sai errado, acrescente uma linha, e teste de novo com a mesma entrada. Nunca mude duas coisas ao mesmo tempo, ou você não sabe o que consertou. O exemplo é um agente que qualifica contatos comerciais e devolve um JSON (uma ficha de campos com nome e valor, que outro programa consegue ler).
As saídas são ilustrativas: o tropeço de cada rodada muda de modelo para modelo. O que não muda é o método.
Pense no atendimento por telefone em que cada transferência começa do zero: você repete nome, pedido e problema para cada atendente. Sem memória, cada mensagem é a primeira: você diz o seu nome e, na seguinte, ele pergunta de novo. Existem dois tipos, e quase todo agente começa só com o primeiro.
A etiqueta da conversa. O agente guarda a memória por uma etiqueta: o número de quem escreve, o e-mail, a linha da planilha. Se a etiqueta é a mesma para todo mundo, todo mundo vira uma conversa só. Troque e veja duas pessoas escrevendo com trinta segundos de diferença.
Por que o agente esquece quando a conversa fica longa, mesmo com memória: Janela de contexto.
Pense na lista de ramais do escritório: ninguém liga para “ramal 7” se a lista diz só o número, mas liga para “Financeiro: segunda via de boleto”. Ferramenta é o que transforma o agente de quem responde em quem faz (o antes e depois está em responder ou agir). Ele não recebe um roteiro dizendo quando usá-la: lê o nome e a descrição, e decide. Por isso a descrição é, ela mesma, uma instrução.
Numa ferramenta de e-mail, você não escreve o destinatário. Ao montar a ferramenta, você deixa alguns campos em aberto, e o modelo os preenche a partir da conversa. Pedido: “manda a confirmação para a Beatriz, reunião quinta às 10h”.
Campo que deveria variar e ficou fixo manda tudo para o mesmo lugar. E quem executa o envio é o sistema em volta do modelo, não ele: LLM e harness. Comece com uma ferramenta, teste, e só então some a próxima.
Há ferramentas que só consultam (buscar o contato, listar os projetos, ver a agenda) e ferramentas que mudam alguma coisa (enviar, criar, apagar). A que muda quase sempre precisa de um dado que só a que consulta acha: o endereço certo, o número do projeto, o evento que já existe. Sem a de consulta, o agente preenche o campo com um palpite. Pedido: “cria a tarefa ‘renovar contrato’ no projeto Compras”.
A ordem vai escrita na instrução, na gaveta das regras: “antes de criar, enviar ou apagar, busque”. Sem essa linha, ele pode ter a ferramenta de consulta e pular direto para a que muda.
Modelo, instrução, memória e ferramentas. O sintoma diz qual abrir antes de mexer em tudo.
Comece vazio, corrija uma linha por vez, com a mesma entrada. Ela nunca fica pronta.
O agente decide usar uma ferramenta lendo o que você escreveu sobre ela. Vaga, ele não usa.
Simplificação didática. Cada ferramenta de automação dá nomes diferentes a estas peças, e a divisão da instrução em seis partes é uma das formas de organizá-la. As saídas dos exemplos são ilustrativas. Voltar para Agente.