Diga antes o que você acha que explica o problema, e a pesquisa para de listar tudo e vai fundo onde importa
Pedir para a IA “pesquisar sobre” um assunto devolve um texto bem organizado que passa por todos os ângulos e não aprofunda nenhum. Não é defeito dela: sem saber o que você quer testar, ela distribui o esforço por igual. A pesquisa que serve para decidir começa antes do pedido, com uma hipótese declarada (o que você acha que explica o problema, escrito antes de pesquisar), o que vale como prova, a separação entre o que ela lembra e o que precisa buscar, e poucas fontes, lidas. Na família, este é o segundo trabalho: a planilha mostrou o que aconteceu; aqui se procura por quê.
Peça ao estagiário “um levantamento sobre cancelamento de clientes” e volta uma pasta grossa, bem organizada, que fala de tudo um pouco e não responde a pergunta da reunião. Com a IA é igual, só que mais rápido. No exemplo, a XPTO, uma empresa inventada que vende sistema de gestão para pequenos negócios: a análise da planilha mostrou que os cancelamentos subiram no trimestre. Abaixo, dois pedidos para descobrir por quê. Repare para onde vai a profundidade em cada um.
Para resumir, redigir ou formatar o que você já tem, o pedido simples basta. A hipótese vale quando o resultado vai orientar uma decisão, ou vai ser apresentado a outras pessoas, e o custo de um ponto cego é maior que os minutos de preparo.
Quem entra numa entrevista de emprego já com uma impressão do candidato faz perguntas diferentes de quem não leu o currículo: um quer confirmar, outro quer achar o ponto fraco, o terceiro quer ouvir tudo antes de opinar. Na pesquisa, o tipo de hipótese diz à IA qual dos três trabalhos fazer. Escolha pelo quanto você já sabe e pelo quanto custa errar.
A refutação é o antídoto da IA que concorda com você: ela tende a achar razão para o que você já pensa, e pedir o contrário é o que quebra isso. O mecanismo, com exemplos, está em a IA concorda com você.
Quando o jurídico dá um parecer, ninguém aceita “li num grupo de mensagens” como fundamento: que tipo de fonte vale já está combinado antes. Na pesquisa, sem esse combinado, a IA põe o relatório do setor e o comentário anônimo de fórum no mesmo parágrafo, com o mesmo tom. Abaixo, oito coisas que uma busca sobre os cancelamentos da XPTO poderia trazer. Ligue os filtros e veja o que sobra, e o parágrafo que vai no pedido.
Os dados da própria empresa (os chamados de suporte, a planilha de cancelamentos) não estão na internet: só entram na pesquisa se você anexar. Muitas vezes são a fonte mais forte que existe.
O colega veterano responde muita coisa de cabeça, e o bom veterano avisa: “isso eu lembro, mas confere na norma, que pode ter mudado”. A IA também responde de memória: é o que ela leu durante o treino, a fase em que aprendeu com uma montanha de textos, até uma certa data. Ela não sabe o que veio depois e não guarda de qual texto saiu cada coisa. Quando o chat tem a busca na internet ligada, ela pode ir atrás da fonte; quando não tem, ainda assim responde, no mesmo tom. A mesma pergunta, em três situações:
“Em sistemas por assinatura, quanto do cancelamento acontece nos primeiros meses de contrato?”
Marque cada afirmação da resposta com uma etiqueta: [DE MEMÓRIA] o que você sabe do que leu antes, sem fonte para mostrar agora; [BUSCADO] o que você encontrou nesta pesquisa, com o link e o trecho que diz isso; [PRECISA VERIFICAR] número, data, regra ou nome que eu devo conferir antes de usar. Não dê porcentagem nem valor sem fonte. Se não tiver a fonte, diga onde eu poderia procurar.
Número específico sem fonte não se usa, venha de onde vier. Por que ela preenche o que falta em vez de dizer “não sei”, e o parágrafo que manda avisar o que não encontrou, em alucinação.
Na compra, três orçamentos lidos com calma valem mais que vinte empilhados na mesa sem abrir. A busca devolve títulos, e o título promete o que o texto às vezes não cumpre. Abaixo, seis resultados de uma busca sobre os cancelamentos. Só dá para usar depois de abrir, e cabem três.
Serve quando você sabe o que procura. Você abre, lê e decide o que entra. Quem conhece o assunto filtra com mais critério que ela.
Alguns chats têm um modo de pesquisa mais demorado, com nome que muda de ferramenta para ferramenta. Serve para um primeiro panorama de tema que você não domina. O relatório é uma fonte a mais: os links dele se abrem como os outros.
Antes de fechar um acordo a partir de três e-mails sobre o mesmo assunto, você confere onde eles se contradizem e qual é o mais recente. Com as fontes escolhidas, três perguntas vêm antes da análise, uma de cada vez. Elas não respondem a pesquisa: dizem quanto dá para confiar no material com que ela vai ser feita.
1. Olhando só as fontes que eu escolhi, mostre onde elas discordam entre si: afirmações conflitantes e dados que não batem. Para cada ponto, cite a fonte e o trecho. Se elas forem consistentes, diga isso claramente. 2. Com base nessas fontes, que pontos importantes sobre [o tema] ficaram de fora ou foram tratados por cima? Não invente detalhes: só descreva o que falta. 3. Há pontos de vista contrários, ou menos conhecidos, sobre [o tema] que provavelmente não estão nessas fontes? Descreva em linhas gerais e diga que tipo de fonte eu precisaria buscar para encontrá-los.
A etiqueta que ela põe na própria resposta é uma afirmação dela, não uma conferência. Isso aparece quando a mesma pesquisa se repete, numa rotina (o mesmo pedido programado para rodar sozinho toda semana) ou colada por você toda segunda: o mesmo fato sai “hipótese” num dia e “confirmado” no seguinte, sem fonte nova, e duas rodadas marcam como confirmadas coisas que se desmentem. No máximo, “confirmado” quer dizer “alguém publicou”, não “é verdade”. Pesquisa que se repete se lê contra a rodada anterior.
Lida uma por vez, cada rodada parece firme. Juntas, a terça e a sexta não podem estar certas, e o selo não avisou.
Abaixo está a rodada anterior desta mesma pesquisa. Antes do resumo novo, faça uma lista só com: 1. o que mudou de etiqueta desde a rodada anterior (de hipótese para confirmado, ou o contrário), e qual fonte nova justificou a mudança; 2. o que nesta rodada contradiz a anterior, citando as duas fontes; 3. o que estava marcado como confirmado e não aparece mais. Se nenhuma fonte nova justificou uma mudança de etiqueta, diga isso com todas as letras. [cole aqui a rodada anterior]
Ponha só a versão que vale de cada documento: a edição antiga e a nova juntas criam uma contradição que não existe. Como escolher o que entra quando o material é seu, em resposta ancorada.
É o briefing que você daria a um analista contratado por uma semana: de que cadeira você pergunta, para que decisão, o que você acha, o que conta como prova e como quer receber. Tudo o que esta página mostrou cabe num pedido só. Troque os campos pelo seu caso; a conferência abaixo do pedido reage enquanto você escreve.
Em sala de aula, este pedido aparece com o nome PHFE: persona (a cadeira de onde você pesquisa), hipótese, fontes e estrutura da entrega. O nome é o de menos; a ordem é a de pensar. A linha “antes de escrever, liste as incertezas” faz a IA olhar o que contradiz a hipótese antes de começar a defender uma resposta. Para os campos de um pedido comum, veja prompt.
Sem ela, a pesquisa passa por todos os ângulos e não aprofunda nenhum. Com ela, a IA sabe onde cavar, e o que derrubaria a resposta.
Que fonte vale, que ruído se ignora, o que é memória dela e o que foi buscado agora.
Três que você leu valem mais que vinte que ela citou. E, antes de analisar, pergunte onde elas brigam.
Simplificação didática. Se o seu chat busca na internet, e se tem um modo de pesquisa mais demorado, depende do aplicativo, do plano e da versão; o nome muda de um para outro. A XPTO, os cancelamentos, os resultados de busca, as fontes, a porcentagem da resposta sem marcação, as conferências e as três rodadas do fornecedor são inventados para o exemplo. Família Trabalhar com dados; irmãs: analisar planilha, comunicar o resultado.